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CONSERVAÇÃO DOS SOLOS

CONSERVAÇÃO DO SOLO (texto 1 - fonte: Solos, Prisma-Brasil, ed. Melhoramentos, com adaptação do engo agrônomo Leonam de Souza).
Juntamente com a luz solar, o ar e a água, o solo é uma das quatro condições básicas à vida no globo terrestre. Alguns chegam a afirmar que a fotossíntese e a capacidade de troca de cátions são os fenômenos mais importantes para a manutenção da vida. É  por intermédio da fotossíntese que os vegetais utilizam o gás carbônico, água e os nutrientes para crescer, frutificar, liberar oxigênio e, é pelo processo de troca de íons que a maior parte dos nutrientes são absorvidos do  solo. Os solos não são estáticos, pelo contrário, encontram-se em estado de contínuas modificações desde a aurora dos tempos. As enxurradas causadas pelas chuvas, os rios e os ventos vêm continuamente desgastando  a superfície da Terra, transportando lentamente as partículas do solo. Este fenômeno é denominado  erosão geológica, ou erosão lenta. É pela erosão que foram esculpidos os os morros, escavados os vales, formadas as várzeas e os deltas dos rios. No estado natural do solo, a vegetação cobre-o como um manto protetor, o que faz com que sua remoção seja muito lenta e portanto compensada pelos contínuos processos de formação do solo. Em condições naturais, portanto, o ciclo de desgaste é normalmente equilibrado pela renovação e, é graças a este equilíbrio, que a vida é mantida sobre o nosso planeta.

No entanto, quando o homem se põe a cultivar a terra para o seu sustento, este equilíbrio benéfico pode ser rompido. Para cultivar o solo é necessário destruir sua cobertura vegetal e arar a camada superficial. Estas operações, quando efetuadas sem o devido cuidado apressam grandemente a remoção dos horizontes superficiais, promovendo a erosão acelerada. Existem inúmeros exemplos de regiões outrora ricas e produtivas, onde a intensificação sem cuidados da agricultura, provocada pelo aumento incontrolável da população, ocasionou a erosão acelerada do solo, reduzindo a sua capacidade de produção a níveis ínfimos. é o caso , por exemplo da civilização  dos maias, na América Central. Segundo vários historiadores, essa civilização desapareceu devido ao depauperamento do solo, ocasionado pela erosão acelerada. O empobrecimento dos solos vem há muito tempo preocupando os cientistas e lavradores mais conscienciosos. Em muitos casos parece até que os agricultores tudo fazem para acelerar a degradação dos solos: as matas são derrubadas e queimadas desordenadamente, as encostas íngremes são aradas na direção da maior declividade, os pastos são superlotados com rebanhos, e terras cultivadas sõ submetidas a monocultura, ano após ano, sem proteção contra enxurradas ou restituição da fertilidade natural com adubos. Não é difícil perceber os sinais de desgaste, o mais difícil porém, é perceber quais a más conseqüências futuras. A aceleração do ritmo da erosão  tem produzido condições anormais bastantes notáveis: a presença de voçorocas, pomares com árvores raquíticas e raízes expostas, barreiras caídas em estradas, degradação das pastagens, assoreamento de reservatórios de água, inundações em campos e cidades ribeirinhas e águas turvas e barrentas nos rios e riachos.

O arraste dos solos e adubos para águas fluviais e lacustres acarreta a mudança da microflora aquática e consequentemente, da fauna, com graves prejuízos para os peixes. Portanto, a erosão acelerada além de depauperar o solo, agrava a poluição das águas, já sobrecarregadas com dejetos industriais e esgotos das cidades. O Brasil já apresenta em algumas áreas sinais evidentes de erosão acelerada de seu solo, apesar da vastidão do seu território. Valendo-se da abundância de terras para explorar, a agricultura brasileira tem caminhado sem cuidados rumo a oeste em busca de outros sítios. Neste caminhamento, ela deixa em seu roteiro sinais de empobrecimento pela erosão. Um dos exemplos deste tipo de agricultura é a cultura do café, avançando sempre em busca de terras virgens, e que começou extensivamente no Estado do Rio de Janeiro e Espírito Santo e, há muito, já alcançou o oeste do Estado do Paraná. Por outro lado,  já começaram a aparecer sinais animadores  do surgimento de uma nova mentalidade, que é a de cultivar o solo, procurando-se ao mesmo tempo conservá-lo e melhorá-lo. Hoje existem, por exemplo, milhões de covas de café plantadas com tecnologia avançada em Latossolos que originalmente estavam sob vegetação de cerrado, até bem pouco tempo considerados inaproveitáveis devido a fertilidade natural baixa, acidez elevada e presença de alumínio fitotóxico. Esta nova fase está sendo implantada principalmente nas regiões de agricultura mais antiga do pa´s, onde já existe por parte do agricultor, uma mentalidade conservacionista e, por parte do governo, a filosofia de fornecer assistência ao lavrador para ensinar-lhe as práticas modernas de conservação do solo.

O objetivo da conservação do solo é, portanto, o de fomentar o combate à erosão, com a melhor utilização das terras de cultura e dos campos de pastagens. Os resultados observados até agora mostram que os agricultores podem preservar o solo e proporcionar maior estabilidade a seus empreendimentos se, para isto, tiverem vontade, os meios materiais e os conhecimentos necessários. Uma vez que o solo é base fundamental de qualquer Nação, a sua conservação assume grande importância econômica, sendo garantia da própria estabilidade social do País. A conservação do solo, portanto, deve ser preocupação e responsabilidade, sem exceção, de todos os homens.

As causas da degradação dos solos
O solo quando desprovido da sua vegetação natural e cultivado ou utilizado como pastagem, fica sujeito a uma série de fatores que tendem a depauperá-lo. A velocidade com que este depauperamento se processa varia com o tipo de solo, clima e topografia da região; mas, sempre existirá se o agricultor não tiver o cuidado de combater devidamente as causas. O principal motivo da degradação do solo é a retirada de elementos nutritivos pelas colheitas e erosão. Os vegetais retiram do solo nutrientes, incorporando-os nos seus tecidos, principalmente nas sementes e frutos. Em condições normais, sem a influência do homem, os restos vegetais são devolvidos à terra pela sua queda e decomposição. Assim, sempre que o agricultor retira da terra os produtos vegetais, ele exporta certa quantidade de elementos nutritivos essenciais às plantas.  Estas retiradas são como saque feito em um depósito com capacidade limitada e, quando continuamente repetidos, sem reposição equivalente, redundam no esgotamento progressivo das terras. Alguns tipos de solos têm grande reserva mineral, podendo sustentar por vários anos colheitas agrícolas, sem reposição dos nutrientes exportados, através de adubações. Outros, ao contrário, dispõem de uma reserva pequena, e conseguem sustentar agricultura por curtos períodos de apenas dois ou três anos, ou são naturalmente tão pobres que, se não forem naturalmente adubados, desde o início dos cultivos, nada produzirão.

Processos  erosivos
A erosão acelerada é uma das principais causas da degradação dos solos. Ela pode ser tecnicamente definida como a remoção das partículas do solo das partes mais altas, pela ação das águas da chuva ou dos ventos, e o transporte e deposição destas partículas para as partes mais baixas do relevo, ou para o fundo dos lagos, rios e oceanos. A erosão hídrica, ou erosão causada pelas águas, é no Brasil mais importante que a erosão causada pelos ventos. Ela é composta de duas fases: desagregação e transporte. A desagregação é ocasionada  tanto pelo impacto das gotas da chuva como pelas águas que escorrem na superfície. Em ambos os casos uma energia tem que ser utilizada para desagregar e arrastar o solo. Esta energia tem o nome de energia cinética ou energia de movimento e sabe-se que é proporcional ao peso (ou massa) do objeto que está se movendo e ao quadrado de sua velocidade. As gotas de chuva atingem a superfície com uma velocidade entre 5 a 15 km/hora, enquanto as águas de enxurradas têm velocidade usualmente que não ultrapassam 1 km/hora. O impacto direto das gotas de chuva num solo desprovido de vegetação provoca a desagregação das partículas, sendo o primeiro passo para a erosão. Ao contrário, quando a superfície do solo está revestida com mata, a copa das árvores absorve a maior parte da energia cinética das gotas das chuvas e o manto de folhas sobre o solo amortece o restante do impacto advindo do segundo trajeto, da copa até a superfície do terreno. Grande quantidade de solo pode ser removida desde que suas partículas estejam desagregadas e suspensas nas águas das enxurradas, porque isto as torna suscetíveis de serem transportadas. A facilidade com que uma partícula é transportada depende do seu tamanho. As argilas e o silte são as mais facilmente carregadas pelas águas devido à pequena dimensão que apresentam.

A erosão hídrica
Existem basicamente três tipos de erosão hídrica. A remoção gradual de uma fina camada superficial de espessura relativamente uniforme, cobrindo praticamente todo o relevo, é a erosão laminar; o desgaste em faixas estreitas dirigidas ao longo dos maiores declives do terreno é chamada de erosão em sulcos; e o deslocamento de massas de solo, formando grandes desbarrancamentos ou cavidades é a erosão em voçorocas. Desses três tipos, a erosão laminar é a mais importante. As perdas de solo por este tipo de erosão superam em muitas vezes as outras duas formas, mas, no entanto, ela chama menos atenção e, por isto, voçorocas e sulcos comumente causam maior preocupação ao público. A erosão em sulcos e as voçorocas afetam imediatamente a capacidade de produção da terra de uma determinada propriedade, ao passo que a natureza lenta e insidioas da erosão laminar faz com que muitos agricultores não percebam o problema, antes de atingir maiores proporções, para poder ser corrigido. 

Fatores erosivos atuantes
A maior ou menor suscetibilidade de um terreno à erosão pela água depende de uma série de fatores, dos quais quatro são considerados como principais: clima da região, tipo de solo, declividade do terreno e manejo do solo.  Os fatores mais importantes do clima com respeito à erosão são a distribuição, quantidade e intensidade das chuvas. Quando o solo está sendo cultivado, fica mais desprotegido nas épocas em que está recém-arado e se isto coincidir com grandes chuvas, os estragos da erosão serão bem significativos. A intensidade das chuvas é igualmente importante; quando caem mansamente sob a forma de pequenas gotas, durante um período de várias horas, tal como as garoas, elas têm tempo de serem totalmente absorvidas pelo solo e raramente causam estragos. Por outro lado, em forma de aguaceiros, em alguns minutos formará grandes enxurradas e provocará intensa erosão. 

Certos solos são mais suscetíveis à erosão que outros, dependendo especialmente de suas propriedades físicas, notadamente textura, permeabilidade e profundidade. Solos de textura arenosa são mais facilmente erodidos. A permeabilidade é outro fator importante. Os Podzólicos Vermelho-Amarelos, por exemplo, em igualdade de textura e relevo, são mais suscetíveis de serem erodidos que os Latossolos, já que são menos permeáveis devido a presença de um horizonte B mais compacto, de acumulação de argila. Da mesma forma, solos rasos são mais erodíveis que os profundos, porque neles a água das chuvas acumula-se acima das rochas ou camada adensada, que é impermeável, encharcando mais rapidamente o solo, o que facilita o escoamento superficial e conseqüentemente o arraste do horizonte superficial. 

Da declividade ou grau de inclinação do terreno, vai depender a maior ou menor velocidade da enxurrada em conseqüência do menor ou maior arrastamento superficial das partículas do solo. Nos terrenos planos, ou apenas levemente inclinados, a água escoa com pequena velocidade e, além de possuir menos energia, tem mais tempo para infiltrar-se. Ao contrário, nos terrenos muito iclinados a resistência ao escoamento das águas é menor e por isso elas atingem maiores velocidades. As regiões montanhosas são, portanto, as mais suscetíveis à erosão hídrica. 

O modo pelo qual a terra está sendo utilizada, ou seja, se está ou não recoberta de vegetação, o sistema de cultivo, são também fatores importantes que condicionam maior ou menor mobilidade do solo. Com o recobrimento do terreno por uma densa camada de vegetação ou por resíduos de cultivos anteriores, o impacto direto das gotas da chuva é absorvido e há maior infiltração da água por que a vegetação causa obstáculo ao escorrimento superficial. Além disso, as raízes entrelaçam-se segurando mais o solo. A desagregação e o transporte das partículas pode variar então de acordo com o sistema de cultivo do solo. Certos cultivos tornam o solo mais suscetíveis à erosão que outros. Solos com culturas anuais, como o milho, arroz, feijão, soja e algodão, estão mais expostos à erosão que solos cultivados com plantas perenes ou semiperenes, como o café, cana-de-açúcar, cítrus, seringueira e cacaueiro. A maneira com que as culturas são plantadas também influi muito. Em qualquer tipo de cultivo existe uma série de preocupações que devem ser observadas para proteger o solo. Estas são denominadas de práticas conservacionistas.

As práticas de conservação do solo
Através do uso das práticas conservacionistas pode-se cultivar o solo, sem degradá-lo significativamente, quebrando assim um aparente conflito ecológico que existe entre a ação do homem e a preservação da natureza.  Estas práticas fazem parte da tecnologia moderna e permitem controlar a erosão, não anulando-a completamente, mas reduzindo-a a níveis insignificantes. Em áreas onde se faz agricultura com práticas conservacionistas ressalta, `a primeira vista, a beleza da paisagem. As áreas mais declivosas são ocupadas por florestas onde a vida silvestre se desenvolve proporcionando oportunidade de caça controlada. Os campos de cultivo não apresentam sulcos morro abaixo, e têm o aspecto harmonioso das culturas em linha, que contornam os declives das encostas. Os rios têm águas limpas e, se a poluição industrial for também controlada, são bastante piscosos. 

Todas as práticas conservacionistas evitam, entre outras coisas, o impacto direto das chuvas e o escorrimento das enxurradas. Evitando as enxurradas, a água das chuvas mais fortes infiltra-se no solo, enriquece os mananciais subterrâneos, não havendo o escoamento súbito, que perigosamente sobrecarrega o curso dos rios, causando inundações dos campos de cultivos e de cidades. Essas práticas são, portanto, essencialmente benéficas a todos, porque proporcionam tranqüilidade tanto ao agricultor como ao citadino. Para executá-las necessita-se sobretudo conhecer o solo que está sendo utilizado, pois para conserva-lo precisa-se saber como ele é constituído e como se formou. A pedologia, portanto, é muito útil para o estabelecimento das bases teóricas necessárias à orientação das práticas conservacionistas. Existem muitos meios de conservar o solo os quais para efeito didático, podem ser classificados em três grupos: práticas de caráter edáfico, vegetativo e mecânico. 

As práticas de caráter edáfico são aquelas que dizem respeito ao solo em si, procurando manter ou melhorar sua fertilidade. Este conjunto de medidas está resumido em quatro princípios básicos: ajustamento à capacidade de uso, eliminação ou controle das queimadas, adubações e rotação de culturas. O ajustamento à capacidade de uso, refere-se ao fato de que cada solo tem um limite máximo de possibilidade de uso, além do qual não poderá ser explorado sem riscos de degradação. Em outras palavras, as culturas certas devem estar nos lugares certos. Os solos com declives muito acentuados, por exemplo, têm capacidade de serem usados para pastagem ou reflorestamento, sendo desaconselhável para uso com culturas anuais que necessitam aração e gradagem. Por outro lado, os solos profundos, permeáveis, com declives suaves, podem ter várias utilizações pois aí  a suscetibilidade à erosão é pequena. 

As adubações visam a adicionar ao solo os nutrientes que lhe faltam para proporcionar melhor desenvolvimento das lavouras. Elas visam tanto a corrigir  deficiências naturais do solo como a compensar os nutrientes que são removidos com as colheitas. Para efetuar adubação, o agricultor moderna retira uma amostra de sua terra e a envia a um laboratório de análise, para que seja examinado. Com base nos resultados das análises, são indicados os corretivos e fertilizantes que devem ser usados. Dos corretivos, o mais utilizado é o calcário moído, que serve tanto para corrigir a acidez, elevando o pH  a valores apropriados para eliminar elementos tóxicos (alumínio), quanto para fornecer macroelementos como o cálcio e magnésio. Os fertilizantes são usados para fornecer outros elementos nutritivos, dos quais os mais necessários são o nitrogênio, o fósforo , o potássio e o enxôfre. 

No sistema de rotação de culturas, alternam-se em um mesmo terreno diferentes culturas, em uma seqüência regular. Essa prática é baseada no fato das culturas terem exigências diferentes. A rotação de uma cultura que tem maior capacidade de extrair nutrientes do solo, com outra com menor capacidade, como por exemplo algodão-soja-algodão, é altamente recomendável porque possibilita o aproveitamento maior dos adubos adicionados à terra.

As práticas de caráter vegetativo visam o controle da erosão pelo aumento da cobertura vegetal do solo. As principais ações de caráter vegetativo são, dentre outras: reflorestamento, formação e manejo adequado de pastagens, culturas em faixas com renques de vegetação em nível que interceptem o escoamento das águas, plantio de grama nos taludes das estradas, faixas de árvores formando quebra-ventos, controle das capinas, roçando-se o mato em vez de arrancá-lo, cobertura do solo com palha ou acolchoamento, . Não obstante serem bastante efetivas no controle da erosão, algumas dessas medidas, como por exemplo, o acolchoamento, são raramente usadas por serem antieconômica, em muitos casos. Todas as práticas vegetativas procuram cobrir o terreno com árvores, folhagens ou resíduos vegetais, imitando ,portanto, a natureza. O revestimento vegetal do solo, como já foi visto, protege tanto pela interceptação das gotas da chuva e impedindo o livre escoamento das enxurradas, como fornecendo matéria orgânica e sombreamento ao solo, proporcionando benefícios, não apenas do ponto de vista de evitar a erosão, como também, no caso do reflorestamento, controlando as perdas em profundidade de elementos nutritivos pela percolação, uma vez que as raízes das árvores podem retirar nutrientes a grandes profundidades.

As práticas de caráter mecânico dizem respeito ao trabalho de conservação do solo com a utilização de máquinas. Elas, em geral, introduzem algumas alterações no relevo, procurando corrigir os declives muito acentuados pela construção de canais ou patamares em nível, que interceptam as águas das enxurradas. De uma maneira geral essas práticas são as que requerem mais dispêndio de recursos financeiros, mas são indispensáveis para que os terrenos de declividade moderada possam ser usados convenientemente com culturas anuais, sem risco de serem erodidos. Entre as práticas mecânicas de conservação do solo podemos citar: preparo do solo e plantio em curva de nível, subsolagem, terraços do tipo camalhão, terraços do tipo patamar, disposição racional dos carreadores, banquetas individuais, estruturas para desvio e infiltração das águas que escoam das estradas, estruturas para controle de voçorocas, plantio direto com máquinas especiais, aplicação de herbicidas, processo que dispensa a aração, dentre outras. Algumas dessa medidas já eram do conhecimento da humanidade há centenas de anos atrás. Os antigos chineses e os incas, por exemplo, usavam a construção de terraços do tipo patamar nas encostas íngremes, principalmente para o cultivo de arroz, milho e batata. Estes terraços têm o aspecto de grandes degraus, como se a encosta fosse uma imensa escada, e foram construídos manualmente, por muitos anos.


PREJUÍZOS COM AS PERDAS DE SOLO NAS ÁREAS AGRÍCOLAS (texto 2 - fonte: Prof. Altir Corrêa)
Há uma constante preocupação dos técnicos conservacionistas em demonstrar aos agricultores e pecuaristas, que a proteção do solo contra os agentes que provocam a erosão representa uma economia financeira, pois a terra transportada contem nutrientes e, conseqüentemente, há empobrecimento na fertilidade do solo, resultando na diminuição da sua produtividade. Temos salientado (CORRÊA, 1985): "É praticamente inexeqüível a estimativa de quanto o País perdeu, em valores econômicos, de nutrientes dos solos e fertilizantes adicionados - com o carreamento de terras - em virtude da ação das enxurradas sobre os terrenos." Há efeitos diretos, sentidos pelos usuários, que se refletem na redução da fertilidade dos solos; e, conseqüentes, como a poluição da água das correntes fluviais e reservatórios. Há prejuízos imediatos, resultantes das ações erosivas anteriores e os que serão detectados no futuro, pela ausência do emprego de processos de controle da erosão. O atual descaso com a conservação do solo e da água atinge à população atual e afeta a sustentabilidade das gerações futuras. Há muitos anos os conservacionistas vêm alertando os dirigentes do País para os efeitos catastróficos da erosão dos solos, que está roubando a fertilidade dos terrenos, preciosa herança que deveria ser transmitida integralmente.

O desgaste das camadas de terra não ocorrem somente nas áreas exploradas com atividades agropecuárias. A derrubada da mata, para extração de madeiras, não só para exportação como para construções e fabricação de móveis, lenha, carvão e celulose; as alterações dos terrenos, para as explorações minerais e outras atividades industriais; as queimadas constantes de vegetação, são práticas que deixam os terrenos descobertos, facilitando a ação da água da chuva e concorrendo para o arrasto do solo para diversos locais, ocasionando danos ao ambiente. Alguns agricultores e pecuaristas não percebem o desgaste dos terrenos pela erosão laminar e outros consideram natural esse transporte. Há, ainda, efeitos que concorrem diretamente para a erosão do solo, porém por não serem detectados, passam desapercebidos, como a compactação, mudanças na estrutura, acidez e perda de matéria orgânica; contudo, no futuro, influirão na produtividade.

A gravidade dos problemas ocasionados pela erosão está sendo mascarada porque tem ocorrido, nos últimos anos e para a maioria das culturas, um aumento nas colheitas, influenciado pelos melhoramentos da tecnologia, com cultivares mais produtivos, a expansão das áreas exploradas, com a ocupação de novas fronteiras agrícolas e o emprego de fertilizantes químicos, suprindo os nutrientes carreados pelas enxurradas. "Processos agrícolas para a conservação do solo e controle das enchentes", da autoria de H. H. BENNETT (1936), tradução de um Boletim do Dept. de Agricultura dos EUA., foi uma das primeiras publicações do Serviço de Informação Agrícola, do Min.da Agricultura. O autor ressalta: "Cabe ao fazendeiro uma contribuição bem definida no controle das enchentes, pois o uso que o mesmo faz de suas terras representa um papel importante em qualquer projeto de envergadura, destinado a impedir ou controlar as inundações."

Há um ciclo: erosão x assoreamento x chuvas x enchentes x desabrigados e outros prejuízos - que pode ser rompido com a eliminação da causa básica - a erosão hídrica do solo.

Temos destacado, em vários escritos, que é lamentável o quantitativo de terra-fértil carreada pelos rios Paraná, Paraguai e Uruguai, formadores do rio da Prata e que é depositado nesse estuário. São bacias hidrográficas onde, em nosso país, se situam as terras mais ricas em nutrientes. Como aí se localizam as terras-roxas, de cor avermelhada, comparamos esse transporte a uma sangria do território brasileiro. DERPSCH (1997), no ítem: As leis não-escritas dos rendimentos decrescentes, destaca : "A alta intensidade de chuvas que prevalece nos trópicos e subtrópicos está geralmente associada a perdas de solo maiores do que a regeneração natural, resultando em degradação química, física e biológica do solo e na diminuição dos rendimentos das culturas." São poucos os estudos que investigam as relações econômicas da conservação dos solos e escassas as pesquisas que abordam as relações: 1 - erosão x degradação do solo; 2 - os custos que a erosão cria para a sociedade; 3 - as perdas-de-solo com a redução da produção; e, 4 - o relacionamento dos efeitos cumulativos da erosão na produção das culturas e pastagens, através de fatores que afetam as condições do enraizamento da vegetação. Há valores esparsos, a maioria feitos por extrapolação, relacionando a degradação do solo e da água com a produção. É importante quantificar as perdas de terra e água, para os vários tipos de solo, relevo e uso agrícola.

 Ação da Água-da-chuva
A água da chuva que cai sobre um terreno exercerá maior ou menor ação erosiva no solo, em função de vários fatores, além de ser proporcional à sua intensidade (erosibilidade): 1 - Condições topográficas: comprimento da encosta; grau de declive; área do terreno;  forma da gleba. 2 - Características do solo - (erodibilidade): textura; estrutura; profundidade do solo; permeabilidade; grau de dispersão. 3 - Tipo de vegetação que recobre o terreno: espécie de cultivo; densidade de cultivo.

Em várias pesquisas realizadas, foi constatado que o processo erosivo tende a se acelerar, com a continuidade da execução das atividades agropecuárias, se medidas não forem adotadas para impedir a ação dos agentes degradantes. Ocorre, também, que quando um terreno perde a sua capacidade de resistência à ação dos agentes erosivos, esta atuação se intensifica, porque aumentam os fatores que favorecem o desgaste, destacadamente o volume e a velocidade das enxurradas. Ao mobilizar a terra para a produção agropecuária o homem modifica os sistemas naturais. Alguns tipos de solo podem ser usados sem que as suas características sejam alteradas, enquanto outros, facilmente tornam-se instáveis. A menos que o sistema imposto para uso e manejo incorpore precauções para a manutenção de uma nova estabilidade, ocorrerá a degradação do terreno.

A erosão de impacto é o primeiro efeito de uma chuva sobre o solo. Segundo STALLINGS (1957): "o cientista alemão WOLLNY, em 1879, foi um dos primeiros a ressaltar que a vegetação protegia o solo contra a ação da água da chuva. E ELLISON, em 1944, foi o primeiro a reconhecer que a ação de impacto da gota de chuva no solo, diretamente, e o salpico resultante, são as causas principais da erosão hídrica, demonstrando que o efeito da proteção da cobertura vegetal era devido ao fato de que esta absorvia a energia cinética da gota de chuva em sua queda." É evidente que a água da chuva atua com uma força vertical, quando cai sobre o terreno, e outra horizontal, quando escorre como deflúvio. Nos processos de controle da erosão provocada pela chuva, dois objetivos são visados: manter o terreno com a maior cobertura vegetal possível, evitando a ação de impacto da gota de chuva, e aumentar as condições para infiltração e redução do volume e da velocidade da água que escorre, de modo a controlar a erosão laminar.

Medição das perdas
Objetivando determinar a natureza, as causas, a extensão e os efeitos do depauperamento do solo, nas diversas condições de execução das culturas e realizar outros ensaios, nas instituições de pesquisas de conservação do solo e da água, são construídos talhões com coletores especiais, na parte inferior para receptar e armazenar a água de enxurrada e a massa de terra transportada. O solo arrastado e retido no coletor representa o efeito da água da chuva pelo impacto sobre o terreno e o transporte dessas partículas pelo fluxo que escorre superficialmente. As pesquisas em Conservação do Solo e Água podem ser realizadas com chuva-natural ou com simuladores-de-chuva. Determinadas as perdas de solo por efeito da erosão, é possível avaliar os prejuízos ocorridos com diferentes métodos de cultura e cobertura, a suscetibilidade à erosão dos diferentes tipos de solos e o grau de eficiência das práticas conservacionistas. Do material sólido carreado são retiradas amostras para a determinação da textura do solo arrastado, por análise mecânica. O resultado permite estabelecer a erodibilidade do tipo de solo.

A análise química dos solos realizada em um terreno, em períodos regulares, pode estabelecer a variação da quantidade em elementos nutrientes. Deduzidas das perdas constatadas, a quantidade consumida e retirada pelas culturas, são obtidas as perdas ocasionadas pela ação da erosão hídrica. A perda de uma quantidade de solo e água, pela erosão, afeta diretamente a produção agrícola, qualitativa e quantitativamente. Contudo, a influência dessas reduções nas produções varia com o tipo de solo, profundidade efetiva do perfil e outros fatores. Pode-se afirmar, genericamente, que 5cm de perda de solo superficial podem significar uma diminuição de 5 a 10%. Não é um valor preciso, pois as perdas na produção são variáveis com as características e as condições dos terrenos.

Experimentalmente, pode ser fixada no terreno uma estaca graduada e proceder-se à verificação da quantidade de solo superficial que é retirado pela enxurrada, a cada ano, e relacionar com a produção obtida. Por diferença de leitura do nível do solo restante, constata-se a espessura da camada carreada pela enxurrada. Na prática, não se processa a rotina descrita, mas é medida no tanque coletor a massa de solo transportada. Conhecida a área e a densidade do solo, é obtida a altura média que o volume de solo representa. As perdas por erosão superficial de arrastamento poderão ser quantitativa e qualitativa e são importantes na escolha dos processos conservacionistas. A determinação quantitativa é feita pela medição do volume de terra retido e da água escoada; e a qualitativa, pela análise das substâncias e elementos transportados no material coletado.

Prejuízos com o desgaste dos solos
Os efeitos prejudiciais básicos causados pela erosão das terras agrícolas são as perdas de solo e água, ocasionando a redução na fertilidade dos terrenos e originando uma série de outros malefícios. Durante alguns anos, os conservacionistas adotaram para o território brasileiro, a perda anual média total de solo por erosão, de 600 milhões de toneladas. No folheto "What Price Conservation?" (da Universidade de Illinois, USA, 1984) é indagado: "Se a minha terra continuar a ser erodida com a mesma intensidade (taxas) anual, em quanto o solo será penalizado? Quanto representará em custos de produção? E qual será o custo para fazer algo, relativamente à erosão, em meu país? Ao abordar esses problemas, deve-se reconhecer que a sociedade, em geral, necessita avaliar quatro objetivos principais: 1 - preservar a produtividade do solo, para as gerações futuras; 2 - fornecer um suprimento adeqüado de alimento, a um custo razoável para o uso humano; 3 - prover um lucro adeqüado para os produtores; e,
4 - proteger a qualidade da água e o ambiente."

Considerando que a área de lavoura no Brasil é de cerca de 100 milhões de hectares (incluindo os terrenos em rodízio), e de 200 milhões de hectares a ocupada com pastos, além das áreas incultas e apenas desmatadas e queimadas, é estimada uma perda anual de 3 a 3,5 bilhões de toneladas de terras arrastadas (adotando a média de 10 a 12 toneladas por hectare) Para cada tonelada de grãos produzidos, devido à falta de manejo e uso adeqüados dos terrenos, são perdidas em torno de 10 a 15 toneladas de solo, anualmente. Considerando a produção, apenas de grãos, em torno de 80 milhões de toneladas - adotando a perda média de solo de 12,5 ton para cada tonelada de grãos produzidos -o carreamento pela enxurrada é de cerca de um bilhão de toneladas de solo, anualmente.

Nas terras transportadas dos talhões experimentais e retidas nos tanques medidores de perda de solo é feita a avaliação do quantitativo de elementos nutrientes, destacadamente, nitrogênio, fósforo e potássio (NPK), além do cálcio e magnésio. Com base nesses valores e considerando o preço dos fertilizantes equivalentes, pode-se calcular o custo que representa o carreamento do solo.Estimando que para repor as perdas dos nutrientes fossem necessários 300 quilos de adubos completos (NPK) por hectare, ao preço médio de R$500.00 a tonelada, para restabelecer a fertilidade dos terrenos e adotando a média de produção de grãos de 2 ton/ha, seriam ocupados com lavoura 40 milhões de hectares, que necessitariam 12 milhões de tons. de adubos, representando o prejuízo de R$7 (sete) bilhões de reais, anualmente (ano 2000). (Em torno de 4 bilhões de dólares - 1 US$ = R$1,80).

DERPSCH et al (1990) afirmam: "Somente no Estado do Paraná, com 6 (seis) milhões de hectares de área agrícola, com base na perda de solo de 10 ton / ha / ano, o valor dos principais nutrientes perdidos por erosão é de US$121 milhões por ano." Destacam: "A erosão em áreas agrícolas provoca danos econômicos em outros locais." E citam: "No ano de 1982, aproximadamente 12,5 milhões de toneladas de sedimentos foram arrastados pelo sistema fluvial e depositados no reservatório de Itaipu. Destes, cerca de 4,8 milhões de toneladas são originários do próprio Estado. O valor total dos nutrientes mais importantes (N, P, K, Ca, Mg) existentes neste volume de solo foi considerado equivalente a US$419 milhões por ano. A análise do teor de sedimentos, assim como de fósforo e nitrogênio na água de Itaipu mostrou claramente que os valores mais altos são encontrados durante o período de preparo do solo e plantio." O relatório destaca, ainda, que: Outros três milhões de toneladas de solo são arrastados para o porto de Paranaguá, no Oceano Atlântico."

SILVA (1998) ressalta: "As vias navegáveis também sofrem o impacto do assoreamento. Até cerca de 1950, os portos de Acaraú e Camocim, CE, apresentavam canais naturais de profundidade compatível com a passagem de navios de grande calado. Atualmente, nas fozes dos rios, que desembocam nesses portos, observa-se o enorme volume de sedimentos trazidos das áreas do semi-árido na qual se situam suas nascentes e onde têm seus cursos até chegarem ao mar. A profundidade dos canais, em seus respectivos portos, foi a tal ponto diminuída pelo assoreamento, que canoas e barcos pesqueiros têm sua navegação dificultada pelos bancos de areia emergentes." O autor destaca: " É lamentável que esses assoreamentos são resultantes de terras carreadas dos planaltos (chapadas) e serras, que apresentam solos com boa fertilidade, que por desmatamento, queimadas e falta de proteção das encostas são arrastados pelas enxurradas."

Muitos técnicos têm ressaltado que a intensificação da degradação das áreas exploradas agricolamente, ocorrem por falta de orientação dos usuários, que mobilizam terrenos ultrapassando as suas condições físicas limitantes. VIEIRA (1987) destaca: "Os solos de baixo potencial para exploração agrícola estão sendo utilizados para a produção rural, em desacordo com a sua aptidão agrícola, quando deveriam ser ocupados com atividades menos intensivas, como pastagens e silvicultura." LOMBARDI NETO e DRUGOWICH (1994), no Memorial do "Embasamento técnico do Programa Estadual de Microbacias Hidrográficas", na "Apresentação", destacam: "Com a erosão, São Paulo perde, a cada ano, 194 milhões de toneladas de terras férteis, sendo 40 milhões de toneladas para fundo de rios, lagos, etc. Isso representa a perda de 20cm de solo de uma área de 100.000 hectares, equivalente em nutrientes que são perdidos nessas terras, a US$200 milhões (duzentos milhões de dólares) de fertilizantes. E, ainda: "A erosão representa perdas de 10kg de solo para cada quilo de soja produzida, ou 12kg de solo para a produção de um quilo de algodão, ou 5kg de terra, para a produção de um quilo de milho. Ressaltam, também: "Relativamente à água, é perdido, por ano, em forma de enxurrada, um volume de 10 bilhões de metros cúbicos, equivalente ao abastecimento de 100milhões de habitantes, anualmente."

Efeitos dos processos conservacionistas
Os objetivos do emprego dos métodos de conservação do solo e da água são os de manter a terra em seu local, no terreno, e reter a água da chuva, para que se infiltre e não escorra sobre a superfície, o que ocasionaria a erosão. A finalidade básica dos processos conservacionistas é a da manutenção do solo e da água. No processo produtivo - solo e água - mantém uma ação conjunta, indispensável à produtividade agrícola. Na análise dos processos conservacionistas, além da constatação de sua eficiência no controle da erosão, é importante a determinação dos seus efeitos sobre a produção das culturas, nos terrenos onde são aplicados.

BERTONI e LOMBARDI NETO (1985) relacionam 18 ensaios em realização pela SCS/IAC/SP, objetivando determinar o efeito das diversas práticas conservacionistas na produção das várias culturas. (págs. 330 e 331). Em ensaios, relativamente à incorporação de matéria orgânica, foram obtidos os seguintes resultados (perda de solo em toneladas por hectare) tratamentos: 1 - Palha queimada: 20,2; 2 - Palha enterrada + adubo verde plantado: 15,9; 3 - Palha enterrada: 13,8; 4 - Palha na superfície + adubo verde plantado: 6,5; 5 - Palha enterrada + esterco: 4,2.

Segundo BERTONI et al (1981) os efeitos das práticas conservacionistas em culturas anuais apresentaram as seguintes perdas de solo por erosão: 1 - Plantio morro abaixo: 26,1 ton / ha; 2 - Em contorno: 13,2 ton / ha; 3 - Em contorno e alternância de capina: 9,8 t / ha; e, 4 - Com cordões de cana: 2,5 ton / ha. Esses resultados são variáveis em função do tipo de solo. Na Estação Experimental de Pindorama, SP, com terreno arenoso, a perda de solo com o preparo e plantio morro-abaixo foi de 76,7 t / ha, enquanto em Campinas, SP, com terra-roxa, foi de apenas 22,5 t /ha.

Os pesquisadores da Seção de Conservação do Solo do Instituto Agronômico (SCS / IA / SP), de acordo com dados obtidos em diversas Estações Experimentais do Estado, apresentaram um quadro com as perdas de solo e água para as diversas coberturas vegetais. Perdas de solo em ton/ha, por ano: 1 - mata: 0,01; 2 - pastagem: 2,5; 3 - cafezal: 5,0; 4 - algodoal: 90,0. E a perda de água,em porcentagem sobre a chuva caída anualmente: 1 - mata: 0,9%; 2 - pastagem: 1,4%; 3 - cafezal : 1,8%; 4 - algodoal: 6,0% (MARQUES, 1949).

BERTONI et al (1981) citam: "Efeito do tipo de uso do solo sobre as perdas por erosão" - Na cobertura com pastagem ocorreu uma perda de terra de 0,4 t / ha / ano. É do consenso geral que os terrenos usados com pastagens perdem quantitativos maiores, no País, pois a maioria das áreas destinadas a essa atividade não apresenta, de um modo geral, áreas com cobertura vegetal suficiente para evitar a ação direta da água da chuva, mas terrenos sem vegetação, por excesso de pastoreio. Testemunhos evidentes do que afirmamos são as extensas áreas de pastagens degradadas e as terras do Vale do Paraíba do Sul. Outro índice dessa citação de perda de terra que causa impacto é o da cultura do café, com apenas 0,9 ton / ha / ano. Temos salientado que os cafezais foram implantados com adoção das práticas de preparo do terreno e do plantio na direção morro abaixo, que ocasiona elevada perda de terra. Nessa mesma publicação é relacionado que, adotando essa rotina errônea, uma gleba perdeu 76,7 t / ha / ano, em Pindorama, SP (solo arenoso).

Para os diferentes tipos de cultura anual, as perdas de solo variam. Com base na média de 1300mm de chuva por ano e declives entre 8,5 e 12,8%, as culturas em que ocorreu maior quantidade de terra carreada foram:
Mamona (41,5 ton / ha), Feijão (38,1 ton / ha); e Mandioca (33,9 ton / ha). As explorações que menos perderam solo: Cana-de-açucar (12,4 ton / ha); Milho (12 ton / ha); Milho + Feijão (10 ton / ha); e Batata doce (6,6 ton/ ha). A média, para as doze (12) culturas consideradas, foi de 22,475 ton / ha. Alguns autores adotam a média de perda de solo para o País, em torno de 20 ton / ha, enquanto outros consideram 25 ton / ha para toda a área de lavoura.

A área ocupada com as culturas do 1º grupo (perdas maiores), segundo estatísticas, é de cerca de 8 milhões de hectares, predominando o feijão, em torno de 6 milhões de hectares. A produção média nacional de feijão é de 500 kg / ha. Para uma perda de solo de 40 ton / ha / ano, haverá um carreamento de 80 toneladas de terra arrastada, para cada uma tonelada de feijão produzido. Para a área total explorada com essa leguminosa, ocorrerá uma perda de solo de 240 milhões de ton / ha. MONDARDO et al (1978) dividem o ciclo da cultura em quatro (4) estádios: I - Germinação, até os 30 dias iniciais; II - dos 30 aos 60 dias; III - 60 dias à floração; IV - após a colheita.
Como era esperado no I estádio, em que o terreno está praticamente descoberto, no preparo convencional, a soja perdeu 6738 kg / ha, representando 90,75% do total do ciclo (7425 kg / ha); também o algodão, no estádio I, perdeu 9252 kg / ha de terra, ou cerca de 72% do total do ciclo (13000 kg / ha).

O Prof. José Ronaldo Silva (UFC) está realizando pesquisas, a fim de determinar a correlação entre a erosão e a produção dos solos, através do emprego do Índice de Produtividade (IP), estabelecido por RIQUIER et al (1970). Os resultados obtidos mostraram que a produtividade dos solos cresce com os níveis ascendentes de IP, exatamente como determinados nos solos conservados, decrescendo naqueles sob classes de forte erosão. (SILVA, 1998). SILVA e SILVA (1997) realizaram ensaios com cordões de pedra em contorno, não só objetivando reter o solo das encostas, para evitar a erosão nos terrenos cultivados, como para que a terra carreada não assoreasse os cursos dágua, canais para irrigação e o próprio reservatório. E ressaltam: "A falta de proteção dos taludes dos açudes, que reduzem sensivelmente a capacidade de armazenagem dos mesmos."

BERTONI et alii (1981), medindo o efeito do comprimento de rampa nas perdas de terra, em toneladas por hectare, obtiveram os seguintes resultados: "nos primeiros 25 metros, a perda foi de 13,9 ton / ha; nos 25 metros seguintes (50m) a perda elevou-se para 25,9 ton / ha; na rampa de 75 metros, os terceiros 25 metros perderiam 38,8 ton / ha - cerca de três vezes mais que os primeiros. Na rampa de 100 metros, os últimos 25 metros perderiam 51,4 ton / ha, isto é, quatro vezes mais que os primeiros 25 metros." E concluíram:" É muito importante, para o controle da rosão, o parcelamento dos lançantes, usando o terraceamento ou cordões de vegetação permanente.' Em experiências realizadas na SCS/IAC/SP, com o emprego de leguminosas em rotação com outras culturas, houve uma redução na perda de solo. Em um terreno cultivado com algodão continuamente e outro com algodão em rotação com uma cultura de leguminosas e um cereal, enquanto no primeiro a perda de solo era da ordem de 78 ton/ha, no segundo era de apenas 28 ton/ha.

A produção de uma cultura de cereal apresenta maior produtividade quando em rotação com leguminosas. Ensaios executados na SCS/IAC/SP mostraram: milho continuado, produção de 1575kg/ha; milho em rotação com algodão: 2060kg/ha; milho x leguminosa, 2700 kg/ha. Quanto ao efeito do terraceamento no controle da erosão, a diferença de perda de solo no terreno com terraços, para uma área sem processo de controle da erosão foi de 290 kg/ha (terraceado) e 2160 kg/ha, de solo carreado, em terreno sem terraço.

MONDARDO e BISCAIA (1981), relatando dados de pesquisas obtidos pelo IAPAR sobre perdas por erosão no Estado do Paraná, na cultura de trigo/soja, em três tratamentos: a) grade pesada + 2 gradagens niveladoras, sem palha; b) aradura + 2 gradagens niveladoras, sem palha; c) plantio direto, constataram as perdas de solo de 114 ton/ha, 38 ton/ha e 11 ton/ha, respectivamente, quando no terreno não foram construídos terraços e a) 57 ton/ha; b) 19 ton/ha; e, c) 5,5 ton/ha, quando providos de terraços (pág.38). Este último dado revela, também, a necessidade da construção de terraços, mesmo com o uso do sistema de plantio direto.

Plantio direto na palha

Tornando o terreno permanentemente coberto pela palha, esta evita a ação direta da gota-de-chuva sobre o solo, eliminando o impacto e absorvendo a energia cinética da água que cai. MUZILLI (1985) realizou ensaios de perdas de solos por erosão em áreas cultivadas sob diferentes sistemas de plantio com a sucessão soja-trigo, no Estado do Paraná, e obteve os seguintes resultados:
1- Sistema tradicional (grade pesada + 2 gradagens, com queima da palha) - 60 ton/ha;
2 - Sistema convencional (aração + 2 gradagens sem queima da palha) - 20 ton/ha;
3 - Plantio direto na palha (sem revolvimento do solo) 6 ton;ha.

É observado (IAPAR, 1994): "Para a mesma quantidade de água perdida por escorrimento, esta transporta muito menos solo em plantio direto (ROTH e VIEIRA, 1984, citados por VIEIRA, 1985). No entanto, alguns casos de erosão em plantio direto foram observados, devido à escassez de cobertura do terreno, a retirada dos sistemas de terraceamento ou o plantio sem obedecer às linhas de nível (pág.163)." SILVA (1998), ressalta: "O controle eficiente, duradouro e econômico da erosão, associado à conservação da água e seu uso mais eficiente pelas plantas é uma razão fundamental para que seja adotado urgentemente o Sistema de Plantio Direto no Semiárido." Em experiências realizadas em Podzólico Vermelho-Amarelo, Fortaleza, CE, no Plantio Convencional, a perda de solo foi de 30,9 ton/ha e água, de 233 mm (49%); e no Plantio Direto, 3,1 ton/ha e 184mm (39%). A perda de chuva foi em relação ao total de 475,7mm ocorrida no ciclo de desenvolvimento de cultura.

Efeito das queimadas
Embora o atual estudo seja o do valor econômico das perdas de solo pela erosão hídrica, não pode deixar de ser realçado que a queima da vegetação, ao em vez da incorporação ao terreno, proporciona o deslocamento para a atmosfera de elementos essenciais ao desenvolvimento das plantas: Nitrogênio, Fósforo e Potássio, provocando, ainda, a poluição do ar e afetando a camada de ozônio. Segundo cálculos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), com a queima de 30 milhões de hectares, em 1987, houve uma perda de nutrientes equivalente a Cr$l,5 bilhão.

PRIMAVESI (1981) destaca: "O fogo rouba o material orgânico, elo indispensável entre solo - planta - e - clima, um dos fatores principais do equilíbrio da natureza." E ressalta: "Pelo não retorno da matéria orgânica, a queima mata a vida do solo pela fome." A prática de atear fogo à vegetação persiste nestes 500 anos de ocupação do território brasileiro. Com a queima, os terrenos ficam descobertos e na ocorrência das chuvas, estas atuam diretamente sobre o solo, intensificando a erosão hídrica. O ambiente é seriamente danificado. A prática, aparentemente mais econômica, da queima da vegetação ocasiona, aos recursos naturais, danos que se tornarão muito onerosos no futuro.

Perda-de-água
O manejo do solo e da água e suas interações no processo de uso desses recursos torna-se importante para manter a capacidade de renovação e, consequentemente, a disponibilidade contínua desses recursos. A água, além de causar a erosão do solo, pode provocar poluição, se contiver sais e outros componentes nocivos, como agrotóxicos, por ela transportados e depositados nos terrenos, ou em cursos e reservatórios de água. Sob o ponto de vista econômico, o solo e a água são considerados estéreis quando é elevado e não rentável o investimento para sua utilização, com o propósito da obtenção de colheitas. Um dos efeitos nocivos da degradação de um solo é a perda de sua capacidade de retenção e armazenamento da água, indispensável ao desenvolvimento da vegetação.

O solo e a água têm suas funções complementadas. Se o solo não recebe água suficiente, a produção das culturas é reduzida ou nula. A água, por sua vez, necessita do solo para tornar-se um insumo nas explorações agrícolas, com exceção das culturas hidropônicas. Os processos conservacionistas, em sua maioria, objetivam manter o solo e a água no terreno, aumentando a infiltração e evitando que a água escorra sobre a superfície. SORRENSON e MONTOYA (1989) destacam: "Apesar de ser difícil a quantificação dos danos causados ao meio ambiente, nutrientes e agrotóxicos chegam aos rios do Paraná pelas enxurradas, constituindo-se nas maiores fontes de poluição da água, afetando o equilíbrio de seu ecossitema. Essas alterações ecológicas modificam a qualidade da água, fato importante no abastecimento urbano, além de prejudicarem atividades econômicas e de lazer, como a pesca, o turismo e o transporte fluvial."

No Brasil, as fontes utilizáveis de água são tradicionalmente mal tratadas e poluídas, orgânica e quimicamente; nelas são jogados resíduos de indústria, esgotos e lixo, em geral. A maioria dos brasileiros julga a água como um recurso de utilização ilimitada. Os técnicos relacionados com a preservação da água têm alertado a sociedade para os graves problemas que estão se avolumando, pelas agressões contínuas a este recurso natural. Persistindo os atuais níveis de poluição (contaminação) dos reservatórios e cursos d'água, muitas zonas tornar-se-ão inabitáveis, nos próximos 25 a 30 anos, em torno dos anos 2025 a 2030.

Áreas desertificadas
Um solo degradado, caso não sejam adotadas medidas que eliminem as causas provocantes, pode tornar-se desertificado, isto é, ter a sua fertilidade exaurida, ficando agricolamente improdutivo. Na Conferência das Nações Unidas sobre Desertificação, realizada em Nairóbi (Quênia), em 1977, foi destacada a preocupação alarmante dos técnicos, em relação ao constante aumento mundial das áreas desertificadas. Recente relatório da ONU acusou que novos desertos estão surgindo, em todo o mundo, com uma área em torno de três milhões de hectares, por ano. A expansão das áreas desertificadas também se observa, lamentavelmente, em nosso País. No Rio Grande do Sul, as zonas desertificadas têm uma extensão superior a 2000 hectares e estão sendo ampliadas, a cada ano. É uma típica demonstração da ausência de orientação aos agricultores, pela mobilização de terrenos que, por suas características texturais, deveriam estar cobertos com vegetação permanentemente.No Manual da Secretaria de Agricultura, RGS (1983), é salientado que a degradação dos solos, naquele Estado é, em parte, conseqüência do manejo inadeqüado dos terrenos, fato constatado, destacadamente nas áreas que estão se tornando desertificadas.

Corroborando, CASSOL (1981) ressalta: "As áreas degradadas ocupadas com culturas anuais intensivas ultrapassam em extensão as desertificadas." E, destaca: "Nas explorações de trigo e soja, os solos, originariamente com boas características, estão apresentando problemas de degradação física pelo uso com monocultura e manejo inadeqüado. O preparo do solo é feito de modo a pulverizá-lo acentuadamente, e realizado em condições impróprias de umidade e, ainda, a palha de trigo é queimada." O problema das áreas desertificadas no Brasil atinge não só a zona semi-árida como a sub-úmida-seca, com um total de 1 (um) milhão de quilômetros quadrados, localizados na Região Nordeste e Norte do Estado de Minas Gerais.

A região do Cerrado, em face da destruição das matas e da prática intensiva de queimadas, apresenta muitas glebas que estão sendo degradadas e até desertificadas. Os agricultores e pecuaristas não utilizam as tecnologias adeqüadas para mobilização dos solos deste ecossistema. Núcleo desertificado desse bioma é a Zona do Jalapão, a leste do Estado de Tocantins, com uma área de 30000 km2 e que vem se expandindo a cada ano. É resultante da falta de orientação técnica dos usuários desses terrenos. É, portanto, um deserto formado pela ação inadeqüada das terras, pelo homem.Quanto representa, em valores econômicos, a perda dessa área para explorações agrícolas e pecuárias racionalmente planejadas? No Estado do Rio de Janeiro há, também, uma grande área desertificada, na parte Noroeste, atingindo a extensão de dez (10) Municípios, e que tende a se expandir. As autoridades governamentais têm sido devidamente alertadas pelos conservacionistas, de que – é sempre mais econômico preservar os recursos naturais do que restaurá-los, depois que eles forem degradados. É indispensável sejam elaborados, pelos Governos Estaduais, Programas de restauração de áreas degradadas, de acordo com as características específicas de cada ecossistema onde se encontram.

Salinização de um terreno é, também, um processo de degradação que, no aspecto geral, se assemelha a uma área-desertificada, pela ausência de vegetação. Representa um prejuízo, sob o ponto-de-vista da perda de terreno para uso agropecuário. Na região do Nordeste observa-se, mais acentuadamente, este tipo de solo estéril, resultante de sal na superfície. Entre os fatores que contribuem para o fenômeno estão as características do solo e do subsolo, qualidade da água, despreparo técnico do agricultor irrigante e condições climáticas (elevada evaporação).

 Considerações gerais
1 - Da análise das pesquisas realizadas sobre a degradação do solo e da água, conclui-se que os usuários dos recursos rurais prosseguem na mesma rotina predatóriaa desses elementos, nos quinhentos anos de ocupação do território brasileiro, sem se conscientizar de que estão se prejudicando financeiramente e acarretando danos às gerações futuras.

2 - Depois de danificarem o solo e a água, nas regiões Sudeste, Nordeste e Sul, os desbravadores e ocupantes de novas fronteiras agrícolas se deslocam para o Centro-Oeste e a Amazônia, sem tomar conhecimento de que estão deixando para traz imensas áreas degradadas por lavoura e pastagens inadeqüadamente conduzidas.

3 - Embora tenha sido demonstrado, em ensaios, que o plantio e o cultivo na direção morro-abaixo favorecem a ação erosiva da água da chuva, ainda há muitos produtores rurais que os utilizam rotineiramente.

4 - Prossegue, intensamente, em todas as regiões fitogeográficas do país, o emprego continuado da queima da vegetação, não só para execução de explorações agrícolas como de pastagens, derrubada de matas, corte de lenha, fabricação de carvão e preparo de áreas para garimpagem.

5 - Pela ausência de programas de recuperação de terras degradadas, estão se expandindo, em todo o território, as áreas desertificadas.

6 - Sete bilhões de reais (R$7 bilhões) constituem a estimativa de quanto o país perde, em equivalente a fertilizantes químicos (N. P. K.) carreados pela ação da água da chuva sobre os terrenos, considerando a média de perda de solo de 12,5 ton para cada tonelada de grão produzido e para um total de 1 bilhão de toneladas de solo, anualmente.

7 - Temos sugerido, como solução para reduzir os efeitos da erosão dos solos rurais e a restauração das áreas degradadas, a criação da Agência Nacional de Solos Rurais, com os objetivos de intensificar as pesquisas no setor da Conservação do Solo e da Água; ampliar os Programas de Assistência Técnica aos usuários; prestar apoio aos Projetos de Recuperação de Áreas Degradadas; fiscalizar e punir as explorações rurais que agridam os recursos naturais e outras atividades relacionadas ao bom emprego dos elementos ambientais.

8 - Alguns Conservacionistas têm sugerido a criação de um Fundo de Conservação dos Solos Rurais, a ser constituído com um percentual da receita obtida com a exportação de produtos agropecuários; parte da arrecadação do Imposto Territorial Rural; renda proveniente da aplicação de multas nos usuários que danificarem os recursos naturais; além de dotações orçamentárias.

9 - É urgente e impreterível o estabelecimento da Lei de Uso dos Solos Rurais, a ser elaborada com a colaboração dos profissionais da Engenharia Agronômica, Agrícola, Florestal e Zootecnistas, bem como de representantes dos usuários das terras agrícolas.

10 - Essas medidas sugeridas, se adotadas, já estarão com um atrazo de mais de cinqüenta anos. Contudo, esperamos que ainda sejam postas em prática no corrente ano, para que o Brasil inicie os novos século e milênio com uma mentalidade moderna acerca da sustentabilidade dos recursos rurais e que venha a ser, realmente, um celeiro e não uma extensa área desertificada, no Planeta TERRA.

Referências bibliográficas
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MANEJO E CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA (texto 3 - fonte: Prof. Altir Corrêa)
Em 22 de abril, quando das comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil, evidenciou-se que o conceito de aproveitamento imediatista dos recursos naturais, por parte dos colonizadores, atendeu à rotina predatória, pois não havia compromisso com a conservação dos elementos explorados. Mesmo após o fim do período de colonização não se modificou a mentalidade dos usuários, tendo predominado a tradição destruidora, empregando práticas que agridem as condições edafo-ecológicas, pelo desconhecimento da manutenção dos elementos ambientais. Faltou - no Grito da Independência e na Proclamação da República - que os líderes dos Governos alertassem a população para que a partir daquelas datas (sete de setembro de 1822 e, destacadamente, 15 de novembro de 1889) o território era um patrimônio dos brasileiros, que, portanto, deveriam cuidar dos solos, águas e matas, usufruindo de seus benefícios, mas cuidando da manutenção, a fim de que seus descendentes pudessem desfrutar desses mesmos recursos, para sobreviver.

Não foram proporcionados aos usuários dos elementos rurais a devida assistência técnica e transmissão de conhecimentos sobre a necessidade da manutenção dos recursos ambientais, a fim de que não fosse comprometida a sustentabilidade das gerações atuais e futuras e rompendo a rotina predatória adotada pelos colonizadores e seus descendentes. Após o término da II Grande Guerra (maio-1945) ocorreu uma grande evolução técnica nas explorações agrícolas, pecuárias e florestais, representadas pelos avanços da mecanização, da genética, dos conhecimentos sobre solos e de outros setores das ciências agrárias, que proporcionaram às instituições de pesquisas, de ensino e às equipes de profissionais de assistência um bom acervo de conhecimentos das tarefas a ser executadas, para assegurar a produtividade e a recuperação das áreas, de modo a garantir a execução de um programa de subsistência adequada da população brasileira.

Vários autores que realizaram trabalhos de melhoramento das culturas têm enfatizado que as condições proporcionadas pelos solos mobilizados, às sementes colocadas na terra, não permitem que sejam obtidos os rendimentos potenciais das plantas. As produções agrícolas e pecuárias podem ser majoradas por dois métodos: 1º) expansão da área explorada; ou, 2º) pelo aumento da produtividade por superfície mobilizada. No Brasil tem predominado a primeira prática. Os agricultores e pecuaristas, após degradarem extensas regiões, no Sul, Sudeste e Nordeste, estão avançando em direção ao Centro-Oeste e ao Norte, deixando para trás terras improdutivas.

Segundo PERES (1999): "O Brasil possui cerca de 20% do solo agricultável do mundo e ainda tem muito a contribuir para a produção de alimentos." "De cada 100 hectares disponíveis no mundo, para incorporação ao processo produtivo, 35 hectares estão no Brasil." E, adverte: "A responsabilidade no manejo dessa reserva é muito grande, pois se trata de um recurso estratégico, não renovável, de alta importância social, econômica e ambiental."

Entrosamento das Ciências Rurais

Em fins de 1987 (CORRÊA, 1988), dando prosseguimento à preocupação com a intensificação da degradação do território brasileiro, e que uma parcela ponderável de responsabilidade pela expansão das áreas exauridas vinha sendo atribuída ao emprego das máquinas nas operações agrícolas, propus a realização do estudo e pesquisas das relações: máquinas X solos X plantas, nos seus variados aspectos. No XVI CONBEA apresentei o trabalho Métodos de manejo e uso do solo e das culturas (CORRÊA, 1987), em que destaquei: "as práticas utilizadas de manejo periódico do solo não têm considerado previamente as peculiaridades dos terrenos e o seu comportamento, a fim de que sua mobilização não ocasione alterações (desestabilizações) que facilitam a ação erosiva da água da chuva." As características dos terrenos conforme as práticas empregadas no cultivo da terra e o uso com uma cultura influenciarão nas modificações dos solos, que se refletirá na sua produtividade. Assim, nenhum dos elementos: máquina X solo X planta pode ser considerado isoladamente.

Manejo Periódico
Durante muitos anos, os arados e as grades agrícolas constituiram as máquinas básicas para o preparo periódico do solo, seguido dos cultivos, adubações e dos tratamentos fito-sanitários. Dentre as máquinas agrícolas, o arado é a que os técnicos e agricultores têm dedicado maior tempo em estudo e melhoramento; todavia, a construção de um modelo que satisfaça plenamente a todos os tipos de solos é um problema ainda não solucionado.Tem ocorrido uma série de pesquisas sobre o emprego dos arados de aivecas e de discos, suas vantagens e desvantagens. Arar ou não arar - questão que constitui uma das preocupações dos profissionais da área de maquinaria agrícola. Em 1945 foi bem divulgado um livro: A loucura do lavrador, da autoria de FAULKNER, que procurou demonstrar que o arado de aivecas era o implemento menos adequado para a produção agrícola e que ninguém apresentara razões científicas para justificar a aradura. BERTONI (1949) realizou nas Estações Experimentais, da Seção de Conservação do Solo do IAC / SP, com diversos tipos de solos, a determinação do efeito das várias modalidades de preparo do solo sobre a produção (cultura de milho) e concluiu que a maior quantidade de milho foi produzida nos talhões em que foi usado o arado.

Segundo a bibliografia existente, destacadamente CONTI (1950) e SMITH (1948), as finalidades da aradura são: a) o preparo da terra para receber a semente ou planta que o usuário deseja cultivar; b) inverter a camada superior do solo, incorporando a matéria orgânica existente sobre a superfície; c) enterrar as sementes de ervas daninhas do terreno, dificultando a sua disseminação; d) afofar o solo pelo quebramento de sua estrutura, tornando mais fácil a penetração da água e a maior aeração; e) melhoramento de suas condições físicas, químicas e biológicas, pela mistura da matéria orgânica com o corpo do solo; f) enterrio das larvas e ovos de insetos.

A execução da aradura sempre à mesma profundidade pode resultar, conforme o tipo de solo, na formação de uma camada endurecida (compactada), conhecida como fundo-de-arado (hard - pan). Em algumas regiões, os agricultores adotam a grade-agrícola-pesada para a realização do preparo periódico do terreno, que é completado com a passagem uma ou duas vezes (cruzado) da grade-agrícola-leve. A aradura deve ser feita seguindo a linha de nível. Esta operação, se realizada na direção morro-abaixo ou acima, facilita o desgaste do solo pela erosão e exige maior esforço de tração.

Outras Operações
Não só o manejo ou mobilização periódica do terreno deve ser bem executado, a fim de proporcionar às sementes as condições ideais para sua germinação e desenvolvimento da planta, também a semeadura, cultivo, colheita e outras operações necessitam ser realizados com a máxima perfeição, a fim de proporcionar a maior produtividade e rentabilidade da cultura.

Referências Bibliográficas
BERTONI, José. "Conservação do Solo e Mecanização da Agricultura." I Mesa de Conservação do Solo. Sociedade Rural Brasileira, ANAIS : 277-291. São Paulo. 1949,

CONTI, Marcelo. "Las maquinas en la agricultura moderna." - 2 tomos - Buenos Aires. 1950.

CORRÊA, Altir A. M. "Métodos de manejo e uso do solo e das culturas." XVI CONBEA, SBEA, Jundiaí, SP. in ANAIS. Vol. I : 257-262 (julho). 1987.
-------- "Máquina X Solo X Planta". Máquinas Agrícolas. Núcleo Set. Inform. (NSI), Fundação Ciência e Tecnologia. Ano 3 Nº 1 pág.5. Porto Alegre, RS. 1988.

FAULKNER, E. H. "La insensatez del labrador." (Plowman's folly). El Ateneo. Buenos Aires. 242 p. 1945.

PERES, José Roberto. "Ciência do Solo e Qualidade de Vida." Bol. Informativo SBCS, 24 (3) : 9-11; Viçosa, MG. 1999.

SMITH, Harris P. "Farm Machinery and Equipment." McGraw Hill Book. New York. 520p. 1948.

Bibliografia Indicada
BALASTREIRE, Luiz A. "Máquinas Agrícolas." Ed. Manole, São Paulo, 307p. 1987.

BERTONI, José e LOMBARDI NETO, Francisco. "Conservação do Solo." Livroceres, SP. 368 p. 1985.

CAMARGO, Otávio A. e ALLEONI, Luis Reynaldo F. "Compactação do solo e desenvolvimento das plantas". Piracicaba, SP. 132p. 1997.

CORRÊA, Altir A. M. "O Brasil no rumo do inabitável." Bol. Inf. Sociedade Brasileira de Ciência do Solo. 19 (2) : 38-43. Campinas, SP. 1994.

Fundação CARGILL. "Simpósio sobre terraceamento agrícola." Coordenadores: Francisco Lombardi Neto e Ricardo Bellinazzi Jr. Campinas, SP. 266 p. 1989.

JORGE, José Antonio. "Física e Manejo dos Solos Tropicais." Inst. Campineiro de Ensino Agrícola. Campinas, SP. 328p. 1985.

LEPSCH, Igor Fernando; BELLINAZZI Jr. R; BERTOLINI, D; e ESPINDOLA, C. R. "Manual para levantamento utilitário do meio físico e classificação de terras no sistema de capacidade de uso." Soc. Bras. de Ciência do Solo. 4ª aprox. 2ª imp. Viçosa, MG. 175p. 1991.

MARQUES, J. QUINTILIANO A. "Processos modernos de preparo do solo e defesa contra erosão" Inst. Fom. Econômico da Bahia. Bol. nº 19. 198 p. 1950.

PRIMAVESI, Ana. "O manejo ecológico do solo - A agricultura em regiões tropicais." Livr. Nobel, 3ª ed. 541 p. 1981.

RAMALHO FILHO, Antonio; PEREIRA, E.G.; e BEEK, K.J. "Sistema de avaliação da aptidão agrícola das terras." SNLCS / EMBRAPA, RJ. 57p. 1983.

SILVA, Luiz Ferreira da "Solos tropicais - Aspectos pedológicos, ecológicos e de manejo." Terra Brasilis, SP. 137p. 1995.

QUINHENTOS ANOS DE DEGRADAÇÃO (texto 4 - fonte: Prof. Altir Corrêa)
Ao ensejo das festividades dos "Quinhentos anos de descobrimento do Brasil" elaboramos esta Síntese, visando alertar as autoridades e a sociedade para os prejuízos oriundos da malversação a que foram submetidos os recursos naturais, nestes cinco séculos, especialmente da Mata Atlântica, a mais rica floresta em biodiversidade da região tropical da "terra", que os brasileiros receberam, graciosamente, da natureza. O Dia do Meio Ambiente é comemorado, em cinco de junho, a fim de ressaltar a importância da conservação das qualidades ambientais indispensáveis às vidas vegetal e animal. No ano de 2000, neste dia especial, registramos com pesar que ainda perdura a dizimação da Floresta Amazônica, da Mata Atlântica, da Caatinga, dos Cerrados e do Pantanal Matogrossense.

Ocorrências
1.
Desde o início, quando aportaram às costas brasileiras, as primeiras expedições, embora com o objetivo de obter especiarias e não as encontrando, começaram a retirar madeiras (em que o litoral era muito rico) e que tinham diversas aplicações nas metrópoles.

2. Com a descoberta do emprego do pau brasil no tingimento dos tecidos, foi intensificada a extração dessa essência florestal, começando um tipo de espoliação que ainda predomina, nos extrativistas - o de explorar um recurso natural até o seu esgotamento - sem a adoção de qualquer prática que objetive a sua preservação e a restauração.

3. Com a introdução da cultura da cana-de-açucar, na região costeira do Nordeste e, associadamente, a implantação da pecuária, ampliou-se a derrubada das matas, precedida da queima da vegetação.

4. Algum tempo depois, porém paralelamente à expansão das culturas de subsistência e industriais e da criação de animais, ocorreu a fase da procura de minerais, com o emprego das mesmas rotinas de agressão às matas. As mineradoras e os garimpeiros ainda prosseguem nestes trabalhos de escavações, desvio de cursos dágua, poluição de rios com mercúrio e outras destruições de terrenos, sem se preocupar em restaurar os elementos da natureza destruídos e/ou poluídos.

5. Queimadas - Era uma rotina adotada pelos aborígenes, conforme salientou "Euclydes da Cunha", em "Os Sertões"; foi um triste legado transmitido aos primeiros ocupantes estrangeiros. A prática de atear fogo à mata e aos restos culturais persistiu nestes 500 anos de ocupação do território e provavelmente assim continuará a ser, por muitos anos. Os efeitos das queimadas são mais agravantes porque, além dos agricultores e pecuaristas, também os madeireiros, lenhadores e carvoeiros usam o fogo como auxiliar, não respeitando nem mesmo as matas nativas, destruindo um bem incalculável e insubstituível - a biodiversidade. Há muitas décadas, especialmente no período de agosto e novembro, os aeroportos das regiões Norte e Centro-Oeste não podem operar seqüentemente devido ao excesso de fumaça, que predomina na atmosfera. Uma ocorrência catastrófica registrada em fins dos anos oitenta, ficou conhecida como "Os grandes incêndios da Amazônia" ateados pelas equipes contratadas por empresas, para implantar explorações pecuárias e, o que foi estarrecedor, estas companhias receberam incentivos fiscais, pela dedução no Imposto de Renda, em um Programa Especial de Aplicações da SUDAM. As proporções do incêndio foram de tal magnitude, que os satélites dos EUA. detectaram o sinistro e os técnicos americanos alertaram as autoridades brasileiras para a amplitude das queimadas. Um grande incêndio ocorreu em julho-1988, no Parque Nacional das Emas,GO. destruindo cerca de 500 quilômetros quadrados de reservas florestais.

Em janeiro de 1998 ocorreu um mega-incêndio no Estado de Roraima. Devido à falta de equipamentos e pessoal habilitado, a queimada somente foi debelada com a ocorrência de chuvas. A prática, aparentemente mais econômica, da queima da vegetação ocasiona danos aos recursos naturais, que se tornarão muito onerosos no futuro. A acumulação dos elementos que resultam da queima da vegetação, associada à dos combustíveis fósseis utilizados nos veículos e na indústria, têm contribuído para a ocorrência do efeito estufa, cujas conseqüências diretas e indiretas sobre a saúde humana e dos animais ainda não foram devidamente avaliadas; seus efeitos sobre as condições climáticas estão sendo analisados, mas as primeiras conclusões são desalentadoras para as produções agrícolas e pecuárias.

6. Desmatamento - Desde o início da colonização, as florestas da região costeira vêm sendo derrubadas. Destacam-se as matas de jacarandá e outras madeiras nobres da região do Sul da Bahia, do Norte do Espírito Santo e da denominada Zona da Mata de Minas Gerais. De um total de, aproximadamente, 1,3 milhão de quilômetros quadrados da Mata Atlântica primitiva, restam, apenas, cerca de 50 mil km2 - menos de 5% da área original.A intensificação do desmatamento se acentuou a partir de 1920, após o término da I Grande Guerra, com a vinda de imigrantes, especialmente da Europa. Além do prosseguimento da derrubada das árvores da Mata Atlântica, ocorreu a destruição avassaladora dos pinheirais da região Sul do país. Os carvoeiros e lenhadores avançam com a derrubada de árvores para suprir as demandas dos usuários, destacadamente nas regiões dos Cerrados e no "Meio-Norte", não respeitando as restrições legais de matas nativas, de proteção das nascentes, limites das margens dos cursos dágua, encostas com declives acentuados e cabeço de morros. Na região Norte do Estado do Paraná, as matas de perobas e outras espécies de madeiras-de-lei foram extintas, sem o devido aproveitamento nas serrarias, porque o objetivo era a ocupação da área com plantação de cafezais.

No processo de desmatamento do território brasileiro, há um nomadismo das equipes que atuam na derrubada das matas. No século XX, a ação se acentuou porque os equipamentos foram aperfeiçoados. No início, a derrubada de árvores era executada com machados e o transporte de toras e tábuas era feito por trens-cargueiros e navios. Com a construção das estradas rodoviárias, as cargas passaram a trafegar em caminhões. Dos machados ocorreu a evolução para as moto-serras e os potentes tratores florestais. Essas equipes, depois de destruir as árvores das matas das regiões Sudeste e do Sul, deslocaram-se para as regiões Centro-Oeste e para a Amazônia. A construção da estrada Cuiabá-Porto Velho facilitou o transporte das toras derrubadas da região de Rondônia. Segundo notícias divulgadas pelo Ministério do Meio Ambiente, a área desmatada da Região Amazônica, em 1998, foi de 17.383 km2 e em 1999, de 16.926 km2. A superfície total devastada desse bioma é superior a 550.000 km2 (55 milhões de hectares), representando cerca de 15% da Região Norte e equivalente à área total constituída pelos Estados de S.Paulo, Paraná e Sta.Catarina.

As áreas desmatadas da Floresta Amazônica, da Mata Atlântica e do Cerrado somam 2,5 milhões de km2 (250 milhões de hectares) - quase 30% do território brasileiro, ou a soma das superfícies formadas pelos Estados das Regiões Nordeste e Sudeste. Os técnicos florestais estimam que o desmatamento, em todo o território é superior a 300 milhões de hectares de matas. O desmatamento e as queimadas da região Amazônica constituem as mais sérias preocupações dos ambientalistas, há já algumas décadas, por acarretar desequilíbrios imprevisíveis ao ambiente, com conseqüências desconhecidas. Nesta região estão sendo desmatadas as reservas de mogno, castanheiras e seringueiras.

7. Cafezais - A implantação da cultura do café, iniciada no Rio de Janeiro, nos fins do século XVIII, expandiu-se pelo vale do Rio Paraíba, criando nesta região prósperas propriedades rurais. Devido à metodologia empregada na exploração do café, em poucos anos a terra se tornou esgotada e, devido à falta de controle da erosão hídrica, prontamente formaram-se extensas voçorocas. Então, os plantadores deslocaram-se para as regiões de Campinas, SP. e Ribeirão Preto, SP, empregando - os desbravadores do interior - a mesma rotina de fogo na mata, inicialmente, e o plantio morro-abaixo, favorecendo a erosão hídrica dos ricos solos paulistas de terra-roxa.

8. Solos - Derrubada a vegetação e queimados os restos, os terrenos ficam sujeitos à ação direta da água da chuva, que ocasiona a erosão hídrica do solo, carreando os seus nutrientes. Em poucos anos, a terra torna-se empobrecida, diminuindo a produção agrícola e dos pastos. Os agricultores e pecuaristas deslocam-se para outras zonas agrícolas, deixando para trás áreas degradadas. A rotação de terras é uma rotina que vem sendo adotada desde os primórdios da colonização do país. Na ocupação do território brasileiro com explorações quer de subsistência ou industriais e pecuárias, por ausência de conhecimento, não foram adotadas as tecnologias adeqüadas às condições de solo e climáticas. Digno de destaque foi a ocorrência de imensas voçorocas, no Estado do Paraná, surgidas tanto no meio rural quanto no urbano. Na década de 90, extensas áreas foram desmatadas para a introdução da cultura de soja, sem que os agricultores tivessem a preocupação de garantir a proteção dos terrenos contra a ação dos agentes erosivos e atentassem para as características específicas dos solos, alguns dos quais altamente suscetíveis à degradação. A terra carreada dos terrenos é depositada nos cursos d'água e nos reservatórios. As enchentes dos rios, com inundações das áreas ribeirinhas e das cidades próximas são, na maioria das vezes, originadas pelo assoreamento dos rios, por reduzir a calha de escoamento. O fenômeno das enchentes ocorre em todas as regiões fitogeográficas.

Há um ciclo - erosão x assoreamento x chuvas x enchentes x desabrigados - que pode ser rompido com a eliminação da causa básica - a ação da água da chuva diretamente sobre os terrenos, que provoca o carreamento do solo. Estimativas indicam que o Brasil perde, atualmente, por efeito da erosão hídrica, cerca de 2 a 2,5 bilhões de toneladas de solo, anualmente. Somente com a produção de grãos (situada em torno de 80 milhões de toneladas), o carreamento pela enxurrada é de, aproximadamente, um (1) bilhão de toneladas de terra. Em termos de fertilizantes necessários para a reposição, representa um prejuízo anual de 7 (sete) bilhões de Reais. Avaliar o quanto o País perdeu, em valores econômicos, pelo desgaste dos seus solos, no último século, é inexeqüível.

9. Desertificação - A desertificação é mais propícia a surgir nas regiões semi-áridas; todavia, um terreno pode tornar-se área desertificada pela falta de capacidade do solo em reter a água da chuva que, atuando livremente na terra, ocasiona a sua infertilidade. Assim, em todas as regiões fitogeográficas brasileiras há áreas desertificadas. O Nordeste brasileiro, pelas condições climáticas, possui elementos que favorecem a degradação e a desertificação de suas terras. Nessa Região, o desmatamento foi intenso e o uso da queima da vegetação é prática rotineira. Não foram empregadas as tecnologias adeqüadas à região semi-árida, nas explorações agro-silvo-pastorís; em conseqüência, a desertificação vem se expandindo, tendo atingido cerca de 575.000 km2 (mais de um terço de sua superfície). O problema das áreas desertificadas no Brasil atinge não só a zona semi-árida como a sub-úmida-seca, com um total em torno de 1 (um) milhão de quilômetros quadrados, localizados na região Nordeste e Norte de Minas Gerais. (fonte: Centro de Sensoriamento Remoto do IBAMA/MMA).

As glebas com características mais acentuadas de desertificação encontram-se nas zonas do Seridó (PB/RN), Iauruçuca (CE), Cabrobó (PE) e Gilbués (PI), totalizando uma área de 18.743 km2. A região do Cerrado, em face da destruição das matas e da prática intensiva de queimadas, apresenta muitas glebas que estão sendo degradadas e até desertificadas. Os agricultores e pecuaristas não utilizam as tecnologias adeqüadas para mobilização dos solos deste ecossistema. Núcleo desertificado desse bioma é a zona do Jalapão, a leste do Estado de Tocantins, com uma área de 30.000km2 e que vem se expandindo, a cada ano. O Prof. Vasconcelos Sobrinho previu a formação do Deserto-do-Meio, constituído por uma grande faixa de areia unindo a área da Caatinga à do Cerrado, com probabilidade de aumentar, nas vizinhanças, nas várias direções. Nas regiões fitogeográficas brasileiras existem áreas desertificadas, sendo a mais grave a de Alegrete, RS. No Estado do Rio de Janeiro há, também, uma grande superfície desertificada, na parte Noroeste, atingindo a área de dez (10) municípios e que tende a se expandir. A salinização de um terreno é, também, um processo de degradação que, no aspecto geral, se assemelha a uma área desertificada, pela ausência de vegetação. Na região do Nordeste ocorre este tipo de solo-estéril, resultante do excesso de sal na superfície. Entre os fatores que contribuem para o fenômeno, estão as características do solo e do subsolo, qualidade da água, despreparo técnico do agricultor irrigante, condições climáticas e, sobretudo, a grande insolação, que provoca elevada evaporação.

10. Água - No Brasil, as fontes utilizáveis de água são maltratadas e poluídas orgânica e quimicamente; nelas são jogados resíduos de indústrias e lixos os mais variados. O pensamento do povo é o mesmo que em relação aos demais elementos, por falta de conscientização ou mesmo orientação, não há preocupação em preservá-la. O crescimento da população aumenta diretamente a agressão aos recursos naturais, por herança familiar e, em geral, falta de educação ambiental. Devido ao alto índice de desflorestamento, em muitas zonas a deficiência de água ocorre em diversos períodos do ano, pois as precipitações escoam rapidamente para os cursos d?água e mares. Os Serviços de Limpeza Urbana jogam lixo domiciliar às margens dos cursos d?água e, quando chove, forma-se um chorume, que corre para os rios e destes, por vezes, para reservatórios de água que abastecem as residências. Levantamentos revelam que 200 toneladas de detritos são lançados, diariamente, na Baía de Guanabara, RJ. Rios que passam por 15 Municípios, conduzem o lixo para as águas da Baía.

11. Conclusões - A análise, embora com um resumo das ocorrências, indica que o conceito de aproveitamento imediatista dos recursos naturais, por parte dos colonizadores, atendeu à rotina-predatória, pois não havia compromisso com a conservação dos elementos explorados. Infelizmente, mesmo após o período de colonização, não se modificou a mentalidade dos usuários, predominando a tradição destruidora, empregando práticas que agridem as condições edafo-ecológicas, pelo desconhecimento das tecnologias de manutenção dos elementos ambientais. A região mais prejudicada pelo emprego de uma rotina inadeqüada, foi a do Nordeste, por suas condições climáticas peculiares. Após a Independência do País faltou aos governantes conscientização para implantação de uma política de uso dos recursos naturais adeqüados aos fatores específicos zonais do território. Não foram elaboradas e implementadas leis, impedindo aos agricultores, pecuaristas, madeireiros e garimpeiros o uso de práticas agressivas aos recursos ambientais e que comprometem a sustentabilidade das gerações futuras, rompendo a tradição predatória instituída pelos colonizadores. As autoridades governamentais ainda não se sensibilizaram, devidamente, para a importância que representa para a sustentabilidade da população atual e das gerações futuras, a instrução dos usuários dos recursos rurais, objetivando a conservação do solo e da água, feita através da assistência técnica.

12. Perspectivas -
Em meu trabalho "Brasil no rumo do inabitável", elaborado em 1994, ressaltei que se os usuários dos recursos rurais continuassem a agredir esses elementos, com a mesma intensidade observada nestes últimos 25 anos, nas proximidades do ano 2050 não haveria condições de manter a subsistência da população. É indispensável que cesse o emprego da tradição predatória. Cada região fitogeográfica (de diferente bioma) deve ser racionalmente explorada, atendendo às características pedológicas e climáticas, de acordo com a capacidade de uso de cada gleba e empregando a metodologia adeqüada que proporcione a sustentabilidade da população atual e a das gerações futuras. É importante que os agricultores e pecuaristas sejam devidamente capacitados a exercer as suas atividades. Não é mais possível a continuação do uso de queimadas e outras rotinas degradantes. Devem ser incentivadas as pesquisas e a assistência técnica das atividades rurais.

Os técnicos da ONU divulgaram um documento realçando que devem constituir as principais preocupações das Nações, a partir do ano 2000: 1 - a superpopulação nas megametrópoles; 2 - a expansão das áreas desertificadas; 3 - a intensificação da derrubada das matas, notadamente as situadas nas zonas tropicais, com destaque para a Floresta Amazônica; 4 - a escassez de água na maior parte das regiões do Planeta. Sobre este item está prevista a deficiência de água para dois terços (2 / 3) dos habitantes da TERRA, a partir de 2005. Portanto, cerca de 4 bilhões de pessoas serão afetadas pela inexistência de água potável (não poluída).

Após mais de cinqüenta (50) anos de vivência com as questões relacionadas à conservação do solo e da água, não eram estas as perspectivas que desejava escrever sobre o futuro de nosso País, no que se refere aos recursos naturais. Nestas mais de cinco décadas de trabalhos profissionais, sempre alertei a sociedade e as autoridades para a ameaça de fome que paira sobre a população brasileira, pelo descaso relativamente ao solo e à água, em particular, e ao meio ambiente, em geral. Vários pensadores têm salientado que o ser humano só dá importância a certos bens quando faltam. Assim ocorre com a saúde, a água e o alimento. Será necessário que a população sinta essas deficiências para dar-lhes o devido valor?
O sonho não morreu e a esperança permanece de que, em breve, outra mentalidade será adotada pelos usuários dos recursos naturais, destacadamente solo, água e vegetação, que se conscientizarão da necessidade de utilização racional desses elementos.

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